Psicóloga Eliana Di Sarno

Shine

Não se resume apenas a um simples filme, mas trata-se da vida, onde nos deparamos com o enredo fascinante da loucura. O filme retrata a história real de uma famíliade origem judia na Austrália que levava uma vida bastante humilde. O “personagem central”, David, é iniciado pelo pai, Elias Peter Helfgott, ao piano desde muito cedo. O pai de David era um músico frustrado extremamente autoritário e exerce uma grande influência destrutiva sobre o filho. O menino revela dotes especiais e passa a despertar a atenção das principais escolas de músicas da época. O pai não apóia os estudos do filho, que demonstra querer ser a única pessoa a lhe “ensinar” a arte da música, no entanto, se deixa vencer e permite que David tenha aulas com um professor, Ben Rosen, que participou do jure em seu primeiro concurso e se ofereceu para ministrar as aulas.

Algum tempo depois David vai para a Escola Real de Música em Londres onde passa por um aperfeiçoamento e é considerado um gênio por seu então professor Cecil Parkes. Ao final de um concurso, onde tocou o tão esperado concerto de número 3 de Rachmaninoff, considerada uma difícil peça, acontece a sua primeira grande crise psíquica. Ele passa então a viver no Hospital Psiquiátrico de Glendale e demonstra uma perturbação mental especialmente grave, possivelmente do tipo esquizofrênica. O início de seu “caminho de volta”, é claro, está associado ao piano com a senhora Beryl Alcott, ainda que seus médicos o tivessem proibido de tocar, momento este que também começa a se relacionar com outras pessoas.

Essa senhora o tira do Hospital Psiquiátrico e leva para sua casa. Depois de um tempo ele passa a morar sozinho em uma pensão onde voltou a tocar piano. Depois de um tempo Sylvia, a dona do bar onde David tocava piano às vezes, leva David para passar um tempo em sua casa. Neste mesmo momento recebe a visita de uma amiga, Gillian, que acaba se apaixonando por ele e os dois se casam. A parte final do filme demonstra esse testemunho do papel decisivo dos investimentos afetivos na relação com pessoas portadoras de sofrimento psíquico.

Percebe-se que o pai de David não permite que as mudanças aconteçam na estrutura familiar nuclear determinada por ele. Todos são totalmente submissos a ele e ninguém pode adentrar nos limites determinados, claramente demonstrados, de forma

concreta, por meio da cerca de telhas que a casa é envolta Em algumas cenas, em que David está conversando com outras pessoas, o seu pai olha para ele com uma cara fechada e acaba por interromper este contato.

Ele também não permite que a filha leve suas amigas a sua casa e que tenham contatos externos a casa, David foi tratado como criança o tempo todo pelo pai e também pela mãe, o que acabou por provocar o “não crescimento” dele. Durante todo o filme é perceptível que o pai qualifica e desqualifica as pessoas da família o tempo todo. Ao mesmo tempo em que acha que o desempenho de David não está bom, diz que o filho é dele no momento em que outras pessoas o elogiam. Da mesma forma, aparentemente dá carinho ao filho e diz que ninguém o ama mais do que ele e logo após agride o filho e o chama de animal nojento.

Outro ponto importante diz respeito à demonstração dos sentimentos na família. Não se vê em nenhum momento a mãe demonstrando carinho pelo esposo ou pelos filhos, da

mesma forma que o pai também não demonstrava, salvo em alguns momentos em que abraçava David, que não fica confortável com essa atitude.
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