Psicóloga Eliana Di Sarno

O Discurso do Rei

Atrás das paredes dos castelos reais, emergem histórias que retratam qualquer cidadão comum. A glamorosa máscara mítica dos EUS IDEALIZADOS da realeza, não consegue esconder os conflitos humanos inerentes à qualquer pobre mortal. A história infantil do rei GEORGE VI é igual à qualquer outra, de qualquer família, em qualquer lugar do mundo. Como sempre, em todas as épocas e culturas, estas histórias estão recheadas de desencontros, abandonos, perdas, violência física e psíquica, manipulações, desqualificações, desproteções e toda sorte de expressão da incapacitação humana para o vínculo e para o amor.

Na dinâmica familiar do pequeno GEORGE VI, aparece a prevalência de falta de vínculos. Uma mãe ausente e fria. Determinando uma desproteção e desconhecimento de afetividade e intimidade. Um pai persecutório, agressivo e manipulador, tecendo no seu precário vínculo com o filho, a teia do medo. No abandono, GEORGE VI e seus irmãos são entregues aos cuidados de babas. Essas figuras femininas substituíram precariamente a figura materna. Essa inversão de papeis conturba a mente de qualquer criança, povoando-a de fantasias e sentimentos de ameaça e abandono. Como agravante à tudo isso GEORGE VI sofre violência física e psíquica por parte de sua babá, que expressava de forma vingativa, pelo ódio social, sua preferência pelo irmão mais velho. Era sucessivamente punido com agressiva discriminação e punição com falta de alimento. George VI teve sua infância roubada e abusada.

Nesta atmosfera familiar tão insalubre para sua saúde física e mental, GEORGE VI não constituiu um SELF forte (MECANISMOS DEFENSIVOS PARA LIDAR COM A REALIDADE), que pudesse ajudar em seu desenvolvimento. Sua infância abusada, não lhe permitiu sequer a construção de defesas psíquicas razoavelmente eficientes. Assim perpetuou seus medos infantis, contaminando sua relação consigo mesmo, com as pessoas e o mundo real.
GEORGE VI transforma-se em um adulto frágil estruturalmente e psiquicamente. Seus sintomas visíveis, distúrbios alimentares e a gagueira, são apenas a ponta de um iceberg. Todo seu self está comprometido. O medo da vida decorrente das não permissões para ser ele mesmo, povoa e inunda sua mente. Aniquila seus sonhos e suas pretensões.
 

O vínculo de amor de sua esposa não é suficiente para que ele se reestruture. Agarra-se então ao seu mito de realeza. Veste sua couraça de figura real. Esconde-se atrás das convenções e protocolos reais.

Gênio irascível, usando de sua maior defesa psíquica, o ataque, vai ludibriando seus medos diante da vida. Mesmo assim seus sintomas permanecem. Insistindo para serem vistos e qualificados de forma diferente.
Neste cenário inóspito e sem saída, encontra-se encurralado. Desespero e confusão tornam-se sua companhia diária. E então, aparece um elemento diferente em toda esta trama.
Um terapeuta da fala, sem formação acadêmica e com métodos nada ortodoxos. Suas regras são diferentes daquelas que a realeza está acostumada. Sua forma de vínculo também. Na relação com GEORGE VI, quebra os protocolos e determina outra forma de vínculo, até então desconhecida para ele.

No desenrolar da relação entre eles, surge algo que de tão essencial à vida, deveria ser óbvio para todos e também para GEORGE VI. A VERDADE, como veículo facilitador dos diálogos e incentivador de proximidade e intimidade respeitosamente afetiva.

Pois é, deveria ser fácil para todos e para GEORGE VI, porém não é. Tudo isto é definitivamente desconhecido, até então para ele em seus vínculos primários e familiares.
Somos seres relacionais, dependemos do vínculo para a formação de nossa estrutura interior. Nosso SELF. Necessitamos do outro como fonte inspiradora e espelho de nós mesmos. O vínculo permeia nossa construção pessoal e nossa evolução na caminhada da vida. Vínculos frágeis e adoecidos, SELF frágil e doente.


Então, VÍNCULO, VERDADE, INTIMIDADE, RESPEITO e AFETIVIDADE, são ingredientes facilitadores para a construção de um SELF saudável. Porém, GEORGE VI só conheceu estas vivências, através de um vínculo pouco provável na trajetória de sua vida. Vínculo com um plebeu muito longe de sua rotina de realeza. Quase que como por acaso, pois o acaso não existe, foi conduzido a estas experiências reconstrutoras. Reconstruiu sua fala e seu mundo interior. Enfrentou seus medos e suas chagas infantis, facilitado por diálogos verdadeiros , íntimos e reveladores. Aprendeu a cuidar desta relação construtiva, elegendo seu terapeuta como amigo de todas as horas até o fim de seus dias.


 

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