Psicóloga Eliana Di Sarno

Jantar com amigos

O ponto de partida do filme é uma situação informal (o jantar) de onde se desenrola toda a trama. Um casal serve de suporte psicológico para que o outro se analise. Interessante perceber no filme que cada qual ficou do lado de seu amigo em particular. Karen saiu em defesa de Beth e Gabe de Tom. E, esta forma instintiva e intuitiva de cada qual defender o próprio amigo, suscitou a útil oportunidade de ambos fazerem uma avaliação em seu papel de marido e mulher dentro do casamento.

Infelizmente, com o passar dos anos, a tendência de marido e mulher é se tornarem, no casamento, mais amigos do que amantes. Quando isso ocorre, há um esfriamento no aspecto sexual e afetivo. O que abre brechas para se tentar suprir estas carências fora da relação conjugal. Dificuldades no casamento sempre existiram, separações estão ocorrendo a todo instante, mas, saber lidar com as crises e buscar ajuda para tentar recuperar o que se perdeu ou, pelo menos, preparar-se para a tomada de decisões sérias de maneira melhor embasada é o que nem sempre se vê. O filme contribui de forma muito positiva a se fazer uma auto-avaliação da relação conjugal e como cada parceiro tem sido afetado pelo peso do tempo na relação.

A intensidade do amor, do sexo, das brincadeiras, do lazer, vai rareando com o tempo e o casal nem sempre se dá conta de que está faltando alguma coisa, embora, na prática, o relacionamento esteja mudado. Na análise da situação conflitante e desestabilizadora por que passam Tom e Beth, o filme propicia bons momentos para se avaliar a questão da afetividade entre um casal, a questão dos filhos, a questão da busca de um novo parceiro, os fatores motivadores de uma separação e como problemas não resolvidos, emoções não verbalizadas são acumuladas vindo a tornar-se explosivas em algum momento da relação. Na verdade, Gabe e Karen constituíam um casal normal, que amadureceu, envolveu-se com o trabalho, cuidou da educação dos filhos, fazia excelentes refeições, mas que afastaram-se afetivamente um do outro. No auge da avaliação, deitados na cama, entre a leitura ou outra de um parágrafo de livro que cada qual lia, ela desabafa sua decepção com o relacionamento dos dois do ponto de vista da sexualidade: “Não tem saudades de mim? Não sente mais falta de mim?” E conclui não compreender que milagre os mantivera unidos: “Não sei como não nos perdemos também.

É neste instante que Gabe se recorda do seu velho jogo de sedução e cortejo, da velha fórmula de flertar com a namorada e a põe em prática. O filme termina de forma bem romântica, sinalizando que nunca é tarde para redescobrir o que se perdeu no caminho e ajustar o casamento pondo em prática o perdão, a busca, o encontro e que nunca se é velho demais para experimentar a alegria do amor entre um casal que verdadeiramente decidiu construir uma vida a dois.

 

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