Psicóloga Eliana Di Sarno

Garota Interrempida

Transtorno de Personalidade Borderline

Uma das cenas mais marcantes é a inicial, em que Susanna é levada às pressas numa ambulância após ter ingerido uma quantidade enorme de aspirinas e de vodca, numa tentativa desesperada de alívio para sua dor de cabeça. No entanto, percebe-se aqui uma nuance que a distingue de um suicida típico: Susanna não se coloca num local indisponível, mas, pelo contrário, ela sai de casa, onde não havia ninguém, para um supermercado onde pôde ser encontrada e salva.

A cena descrita mostra um aspecto comum em pacientes portadores do Transtorno de Personalidade Limítrofe (Borderline), a tendência a comportamentos autodestrutivos e a impulsividade levadas ao extremo, pois, a princípio, a paciente desejava apenas aliviar a sua dor. No entanto, avaliou mal as conseqüências da ingestão exagerada de tantos medicamentos e bebida alcoólica.

Susanna como mostra o filme tem delírios que chamamos de niilista ou seja idéia errônea de que não possui um órgão ou de que esse perde sua função e se utiliza parcialmente desse delírio para justificar sua tentativa de suicídio, também chamado delírio de negação ou de Cotard. Considerado o extremo do delírio hipocondríaco, o delírio niilista pode associar-se a alucinações negativas, casos em que os pacientes chegam a negar os próprios sentidos e até a afirmarem já estarem mortos.

Merece também destaque, nessa mesma cena, a percepção errônea que Susanna tem acerca do tempo, afirmando sentir que o tempo pode ir para trás ou para frente e que ela não tem qualquer controle sobre o tempo. A essa percepção errônea da sequência cronológica que nos envolve dá-se o nome Discronia.

Durante sua internação no Hospital Psiquiátrico de Claymoore Susanna entra em contato com várias outras pacientes, cada uma com um diagnóstico diferente e peculiar. A primeira com quem ela entra em contato é Georgina Tuskin, internada com o diagnóstico de Pseudologia Fantástica (sic), que consiste no relato falso e incontrolado de histórias fantasiadas nas quais o próprio sujeito passa a acreditar. Em seguida, ela melhor esclarece: sou uma mentirosa compulsiva (segundo a CID 10, podemos diagnosticá-la como sendo portadora de um Transtorno dos Hábitos de Impulsos, não especificado, F63.9).

O contato seguinte se dá de forma bastante impactante. Lisa Newport, uma paciente sociopata (de acordo com a CID 10, uma portadora de transtorno de Personalidade Dissocial, F60.2), apresenta-se como o maior desafio da clínica psiquiátrica. Bastante agressiva, manipuladora, intolerante a frustrações e facilmente irritável acaba se tornando um ponto de apoio para a protagonista durante a maior parte da trama. Em várias cenas percebe-se o quanto Lisa tem regalias no hospital, como por exemplo, receber esmaltes e ter seu cigarro aceso por uma das enfermeiras. A personalidade de Lisa é bem abordada em duas cenas: a primeira, quando ela incita e instiga Daisy, expondo seus problemas, o que acaba levando-a a cometer suicídio; a segunda quando Susanna tem a sua mão machucada por uma pesada porta de ferro e Lisa não expressa nenhuma emoção ao ver a "amiga" sofrer.

Daisy Randone, a personagem mais reclusa, tem história de relações sexuais incestuosas com o pai (não usarei o termo abuso sexual, pois a narração deixa a entender que há permissividade por parte de Daisy), anorexia (nunca come com as outras pacientes e esconde o alimento que recebe o que, aliás, é uma característica dos pacientes portadores de transtornos alimentares, que preferem se alimentar sozinhos, pois o ato de comer vem carregado de um forte conteúdo emocional e de ansiedade), preferência alimentar patológica por frango e constipação crônica. No decorrer da trama, Daisy comete suicídio.

Polly Clark é uma mulher com o rosto desfigurado desde a infância, quando se banhou em gasolina e ateou fogo sobre a própria pele quando soube que não poderia mais criar seu cachorrinho por ser alérgica ao pêlo desse animal. Desde então, apresenta um comportamento pueril e uma marcante regressão psicológica, ainda se comportando como uma criança. Esse comportamento pueril deve-se à Esquizofrenia Hebefrênica (F20.1).

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