Psicóloga Eliana Di Sarno

Cisne Negro

Nina (Natalie Portman) é uma bailaria de 28 anos, extremamente perfeccionista e insegura quanto ao seu futuro na companhia de balé. No momento em que a bailarina mais famosa da Cia se aposenta, Nina tem a possibilidade de protagonizar o espetáculo mais concorrido de quinze entre dez bailarinas no mundo todo: O Lago dos Cisnes. Paralelamente, a entrada de uma nova integrante ao grupo de balé, Lily (Mila Kunis), menos técnica, porém não menos talentosa, faz com que Nina entre numa persecutoriedade sem precedentes pela conquista do papel e destaca o mistério sobre os acontecimentos serem reais, ou delírios e alucinações da protagonista. Nina é extremamente quieta e compenetrada, enquanto Lily, por sua vez, é desinibida e extrovertida. Nina preza pela discrição, Lily gosta de chamar a atenção. Nina é tão técnica que não consegue dar a emoção necessária para interpretar o ardiloso Cisne Negro, enquanto Lily é a personificação do personagem sombrio, mostrando uma sensualidade fatal e perigosa, em muitos momentos. Toda essa rivalidade é intensificada pela relação das bailarinas com o diretor do espetáculo, Thomas Leroy (Vincent Cassel), que pressiona Nina a ser uma artista com mais paixão, usando artifícios bastante inadequados.

O drama de Nina ainda é ressaltado pela relação dela com sua mãe, interpretada por Barbara Hershey; uma mulher controladora e possessiva, que trata a filha como uma menina. A mãe que demonstra claramente traços psicóticos; sem vida social, trancada num apartamento, vivendo só para a filha e a vida da mesma, uma forma de TOC, num misto de inveja, realizações e repressões.

Interessante quando ela se dá conta que já é adulta, que não é mais a menina da mamãe, que é uma mulher, que tem desejos, vontades não saciadas, pois, sua mãe queria uma filha assexuada. Então joga desesperadamente todos os bichinhos de pelúcia do seu quarto infantilizado. Como ela sempre viveu em função da mãe, aos desejos e caprichos da mesma, não deve ter vivido sua adolescência que obviamente aflorou no momento errado. Suas alucinações e delírios ficam cada vez mais forte quando vai se aproximando o dia de sua estréia. Ela visita a outra bailarina acidentada, qual ela no íntimo se culpa por estar em seu lugar, qual crê que a Lily teria o mesmo desejo dela, tanto que quando ela delira, tem a real noção que teria ficado com a amiga, e tudo não passou de seus fortes desejos reprimidos. Pressionada pelo diretor artístico, Nina começa a fazer os exercícios repetidos que chegam levá-la a exaustão e a pressão psicológica torturante.

Nina projeta seu self em Lily. Nina no ato final crê que matou sua maior inimiga, e dança com todo prazer, transcendendo a culpa, se sentindo livre do que mais a atormentava e quando sai do delírio, percebe que ela não matou a Lily e sim, enfiou o vidro do espelho nela mesmo. Daí, o ato final, ela dança com perfeição.
O filme mostra um retrato fiel do comportamento Borderline Nina exterioriza autorrejeição se autossabotando e automutilando (em diversas cenas a vemos se cortar e lixar as unhas até arrancar sangue), o isolamento, a não aceitação da sexualidade, a criação de fantasias e ataques irascíveis.
A metáfora do filme é muito simples: o cisne branco representa a neurose estabelecida, e o cisne negro é o surto, a dor, a psicose, a patologia dançando, a luxúria a carne, a inveja, o ódio encenando sem pudor, sem regras, livre, sem crítica. A patologia ficou tão intensa que ao final você percebe que o maior inimigo dela, é ela mesma. E o balé entre a neurose e a psicose faz seu último ato: a morte, porque a neurose não suporta a psicose e a psicose transcende a neurose.
 

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