Psicóloga Eliana Di Sarno

Mindfulness

A prática de mindfulness passou a fazer parte da medicina comportamental a partir dos programas de redução de estresse de Kabat-Zinn (1982). O conceito, cuja origem está nas práticas orientais de meditação, despertou, logo no início dos anos de 90, o interesse de clínicos fora da área da medicina comportamental. Tomou de assalto as terapias comportamentais contextualistas, que já tinham afirmado sua identidade durante a década anterior Kohlenberg & Tsai, 1987; Linehan, 1987) e se estabeleceu como uma característica central destas (Hayes, 2004).
Kabat-Zinn (1990) define mindfulness como uma forma específica de atenção plena – concentração no momento atual, intencional, e sem julgamento. Concentrar-se no momento atual significa estar em contato com o presente e não estar envolvido com lembranças ou com pensamentos sobre o futuro. Considerando que as pessoas funcionam muito num modo que o autor chama de piloto automático, a intenção da prática de mindfulness seria exatamente trazer a atenção plena para a ação no momento atual. ‘Intencional’ significa que o praticante de mindfulness faz a escolha de estar plenamente atento e se esforça para alcançar esta meta. Está em contradição com a tendência geral das pessoas de estarem desatentas, ou de se perderem em julgamentos e reflexões que as alienam do mundo que as cerca. Para estar com atenção concentrada no momento atual, os conteúdos dos pensamentos e dos sentimentos são vivenciados na maneira em que se apresentam. Eles não são categorizados como positivos ou negativos. ‘Sem julgar’ significa que a praticante aceita todos os sentimentos, pensamentos e sensações como legítimos. A atitude de não julgar está em contraste com a tendência automática das pessoas de investirem na luta contra vivências aversivas, deixando de viver o resto da sua realidade. O praticante não trata de forma diferenciada, sentimentos (por exemplo, raiva contra uma pessoa admirada ou medo de algum aspecto de si mesmo), pensamentos (como ideias imorais) ou sensações (por exemplo, dor na ausência de uma lesão ou diagnóstico que a justifiquem). São suspensas as racionalizações pelas quais as pessoas costumam truncar suas percepções de eventos inquietantes para encaixá-los nas suas opiniões preconcebidas.
Uma idéia central na literatura sobre mindfulness é que viver sob o comando do piloto automático não permite à pessoa lidar de maneira flexível com os eventos do momento. Confiar no piloto automático promove modos rígidos e altamente limitados de reagir ao ambiente. Na vida urbana moderna, agimos muitas vezes sem estar emocionalmente envolvidos em nossas ações, ou fazemos várias coisas ao mesmo tempo, às vezes sem percebermos que as diferentes atividades têm diferentes objetivos e atrapalham entre si. Assim, podemos agir rápido e nos projetar como eficientes e produtivos. Em outros casos, permitimo-nos ficar tão emaranhados em nossos pensamentos e sentimentos sobre passado ou futuro, ou em nossas racionalizações sobre a nossa vivência, que perdemos contato com o que está acontecendo no momento atual (Kabat-Zinn, 1990).
Aspectos importantes do nosso cotidiano são dolorosos. Evitamos pensamentos, sentimentos e situações que nos deixam tristes, inseguros ou envergonhados ou porque achamos que não aguentaríamos. Esta esquiva experiencial, ou esquiva da vivência emocional, foi descrita por Hayes (1999) como a tentativa de não ter determinados sentimentos, pensamentos, memórias, ou estados físicos, por estes serem avaliados negativamente. Trata-se de uma estratégia adaptativa e socialmente aprovada que ocorre quando eventos privados passam a ser alvos de controle verbal. Esta estratégia visa a promover um ‘sentir-se bem’ com a ênfase em ‘bem’, mas isto ocorre ao custo da capacidade de ‘sentir-se bem’ com ênfase no ‘sentir-se’. A pessoa acaba evitando em curto prazo ‘sentir-se mal’, mas perde o contato com aspectos aversivos (porém importantes) da sua vivência (Hayes, Pankey & Gregg, 2002). Uma falha importante desta estratégia adaptativa é que a pessoa procura excluir sensações e sentimentos negativos, enquanto que estes não são danosos em si, mas sim sinais de condições de vida que deveriam ser enfrentados. Outra falha é que muitas vezes a recusa de vivenciar essas sensações e sentimentos os torna mais insistentes. Quanto mais a pessoa tenta não tê-los, mais os terá (Hayes, 1987) Pesquisa empírica também mostrou que tentativas de supressão, ou esquivas de conteúdos aversivos facilitam ruminação mental e levam ao aumento involuntário da atenção seletiva para tais conteúdos, enquanto o treino de mindfulness reduz estes processos (Hayes, 2002).

Hayes, S. C. (1987). A contextual approach to therapeutic change. Em: N. S. Jacobson (Org.). Psychotherapists in Clinical Practice (pp.327-387). New York: Guilford.

Hayes, S. C. & Gregg, J. (2000). Funcional contextualism and the self. Em: J. C. Muran (Org.). Self-relations in the psychotherapy process (pp.291-307). Washington: American Psychological Association.

Hayes, S. C.; Pankey, J. & Gregg, J. (2002). Anxiety and acceptance and commitment Therapy. Em: E. Gosh & R. DiTomasso (Orgs.). Comparative treatments of anxiety disorders (pp. 110-136). New York: Springer

Hayes, S. C. (2004). Acceptance and commitment therapy and the new behavior therapies: mindfulness , acceptance and relationships. Em: S. Hayes; V. Follette & M.
Linehan (Orgs.). Mindfulness and Acceptance: Expanding the cognitive behavioural tradition (pp. 1-29). New York: Guildford

Kabat-Zinn, J. (1990). Full Catastrophe Living: Using the wisdom of your body and mind to face stress, pain, and illness. New York: Delta.

 
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