Psicóloga Eliana Di Sarno

Esquizofrenia Parte 2

COMO MANTER UM AMBIENTE SAUDÁVEL?
 

Nos dias atuais, o conceito de saúde está muito diferente. Antes quando se falava em saúde, pensava-se em ausência de doença. Hoje vai muito, além disso, o importante não é a ausência, mas sim a presença de algo a mais em nossas vidas.

Sabemos que a saúde humana exige calor, amizade, significado e proposta de vida, humor, esperança, sentido. Apesar de se saber disso, no dia a dia esquecemos o valor que tudo isso representa em nossa vida, e o quanto nos torna mais satisfeitos e conseqüentemente auxilia o nosso bem estar e a nossa saúde.

Prestamos mais atenção nas dificuldades, nos nossos erros e nas situações que não acontecem como gostaríamos que acontecessem. Isso faz com que olhemos apenas para os aspectos negativos das situações e tenhamos mais dificuldades para lidar com elas.

O fato de ter alguém que é portador de esquizofrenia sob seus cuidados pode gerar alguns sentimentos de impotência, fraqueza, insegurança e desânimo. Muitas vezes o cuidador ou familiar tem a sensação de estar sozinho e com um grande problema e que vai ter que dar conta de tudo e de todas as dificuldades.
 

Por que isso foi acontecer comigo?Me sinto só!
O que vai ser do meu futuro??
Tenho medo!!
É difícil entender esta doença

 

Esses são alguns dos pensamentos que passam na cabeça do familiar. Mas é necessário lembrar que, assim como ele, o próprio portador pensa e sente as mesmas coisas:

Porém aqui existe uma grande diferença, o familiar não está doente, ele não é portador de uma doença mental. Mas ele pode vir a adoecer. Sua relação com o mundo, com o ambiente e com o próprio portador pode vir a ficar pesada e doentia. Esse tipo de sentimento é prejudicial a saúde de todo o ambiente de convívio. Desta forma, cabe ao familiar buscar qualidade de vida e saúde para esta relação. Afinal de contas, quem se cuida possui mais recursos e disposição para auxiliar e apoiar outras pessoas e o portador é uma pessoa que tem suas necessidades, suas idéias, seu ritmo, sentimentos e pensamentos, precisando ser respeitado.

Devemos lembrar que mesmo quando a pessoa não está doente há uma parte dela que é maleável e saudável. É isso que precisa ser estimulado nos portadores de esquizofrenia, esse lado que pode participar da vida de forma ativa e trazer bem-estar.

É importante que o cuidador consiga respeitar e aceitar que não é inteiramente responsável pela vida do portador, deixando de sentir o peso de assumir decisões e atitudes pelo outro e passando a investir em seu papel de apoiar, respeitar e aceitar o paciente como uma pessoa, que tem dificuldades, limitações e necessita de auxílio. Isto é essencial para a manutenção de um ambiente saudável que promoverá benefícios para a convivência mais tranqüila e eficaz para ambos.

Alguns lembretes que você não deve esquecer para manter uma ambiente mais saudável no seu dia a dia:

• Você não pode curar uma doença mental de um membro da família.
• É tão difícil para o indivíduo aceitar o distúrbio quanto é para outros membros da família.
• Separe a pessoa da doença. Ame a pessoa, mesmo se você odeia o transtorno.
• Algumas alterações de comportamento podem ser sintomas do transtorno. Não as tome-o como pessoais.
• Você não é um profissional. Mantenha o seu papel como o irmão, filho, ou mãe.
• Ë importante cuidar de si para cuidar do outro.
• Você não está sozinho. Partilhar os seus pensamentos e sentimentos com outros em um grupo de apoio é útil e esclarecedor para muitos.

COMO CUIDAR?

As principais características dos programas de intervenções para portadores de esquizofrenia que têm mostrado sucesso incluem: elementos de educação sobre a doença; foco da intervenção nos problemas atuais da família (procurando auxiliá-la a negociar soluções ou adotar novas formas para lidar com os problemas); e reconhecimento junto à família da importância da medicação no tratamento.

O reconhecimento das dificuldades a serem enfrentadas pelos familiares permite a compreensão mais clara dos problemas e fornece elementos para elaboração de planos de ação para resolvê-los. Desta forma, é necessário buscar a solução onde melhor se atua e ela só será possível se a dificuldade é reconhecida.

A esquizofrenia interfere nas relações familiares, provocando sentimentos negativos: como raiva, medo e angústia, pela sensação de impotência causada pelos sintomas.

Como compreender e aceitar os percalços que a doença traz sem descontar no paciente, a principal vítima, as suas próprias frustrações? Como ajudá-lo quando parece que sua própria vida está tão difícil?

O impacto emocional que o adoecimento traz aos familiares é muitas vezes tão intenso quanto àquele que atinge o paciente e desestrutura as formas habituais de lidar com situações do cotidiano e muitos familiares não estão preparados para enfrentar os problemas, não sabem como agir, vivenciando dúvidas e conflitos.

Sabemos que não há “receitas” ou “fórmulas” capazes de oferecer respostas para todos os seus questionamentos e que as situações referentes à vida de uma pessoa são diferentes daquelas que atingem a vida de outra. No entanto, tentamos apresentar algumas formas práticas de lidar com questões comumente encontradas no cotidiano familiar.

Como devo me comunicar?

As comunicações devem ser breves, concisas e claras. Por exemplo, faça uma pergunta de cada vez. A pergunta: “Foi bom o passeio”?” aguardar a resposta, para então, perguntar: “ Quem foi com você?”

Não é necessário discutir com o portador a realidade ou não de idéias delirantes. Essas tentativas geralmente terminam com desentendimentos e raiva. Ao invés de discutir, faça uma simples afirmação de que não concorda ou não percebe a situação da mesma forma. Isso pode ser feito sem desafiar ou provocar. Outra maneira de ajudar o portador é encorajá-lo a expressar seus delírios em casa ou com os profissionais que tratam dele, afim de torná-los conhecidos e permitir-lhe se expressar a respeito destes.

Se as alucinações auditivas estão piores naquele dia, faça comentários simples como: “Estou percebendo que as vozes estão lhe atrapalhando mais hoje” ou “Sinto muito. Há alguma coisa que eu possa fazer para lhe ajudar?”.

Acima de tudo, é importante manter a calma. Tenha confiança que você pode lidar com qualquer situação, por mais difícil que ela seja.


O que fazer quando o paciente se isola?

É importante que a família perceba e aceite a necessidade que o indivíduo tem de se isolar. Ás vezes, no entanto, esse retraimento social é muito pronunciado e é difícil decidir o que fazer. É melhor insistir para que a pessoa saia do quarto e venha se relacionar, ou é preferível deixá-la sozinha? Como regra geral, é melhor deixar a pessoa só. Em alguns casos, o isolamento é uma forma do portador lidar com a “confusão” que se passa na sua mente, e é uma reação adequada. Se ele durar muito tempo, no entanto, é possível que esteja indicando uma recaída e que seja necessária uma avaliação psiquiátrica.

É necessário não tomar o isolamento social como uma rejeição pessoal, e continuar disponível nos momentos em que o paciente quiser se comunicar, fazendo tentativas ocasionais de contato e estimulando passeios que lhe permitam sair do quarto ou de casa.


A família deve ajudar o portador em suas atividades diárias?

A pessoa deve ser estimulada. Cuidando de algumas tarefas da casa ela poderá mostrar que pode ter mais autonomia. As tarefas podem não ser bem recebidas quando o indivíduo é pouco ativo, mas pode ser uma forma de ele mostrar alguma independência e conquistar maior auto-estima.
 

A dificuldade de contato social dos portadores de esquizofrenia pode dificultar o estabelecimento de relações afetivas. É possível ajudá-los na busca desses objetivos?

As famílias e cuidadores podem ajudar incentivando as participações nas mais diversas formas de atividades voltadas à ressocialização, tais como: a freqüência em centros de convivência, lazer e cultura, grupos de auto-ajuda, etc. Em alguns casos é necessário, por algum tempo, que a pessoa freqüente estes lugares acompanhada, até sentir-se segura para fazê-lo sozinha.

Devo aceitar namoros e relações sexuais normalmente?
Às vezes pessoas portadoras de esquizofrenia apresentam um interesse sexual diminuído, mas nem todos têm este sintoma. É importante que as famílias estejam atentas e os orientem quando necessário. Quanto à discrição, às vezes é necessário ajudá-los a lidar com idéias distorcidas e adequação a respeito de sexo e ensiná-los a expressar suas idéias e desejos em locais e momentos adequados.
É fácil compreender que muitas pessoas com esquizofrenia sejam confusas e ansiosas a respeito de questões sexuais. A esquizofrenia se inicia em boa parte das vezes quando o indivíduo está desenvolvendo sua identidade sexual e as preocupações nessa área estão sendo resolvidas. Caso não consiga completar esse processo as questões não resolvidas podem continuar a ocupar seus pensamentos.
É importante, também que a família oriente e fique atenta para que o portador não se envolva em relacionamentos sexuais não desejados por ter dificuldade em dizer não ou, em casos de maior gravidade, para obtenção de recompensas como dinheiro, cigarros ou comida. Outra questão importante é a orientação quanto à necessidade do uso de preservativos e à prevenção de uma gravidez.

Uma portadora de esquizofrenia pode engravidar?

Sim. Mas cabe ao Psiquiatra orientar a possibilidade de substituição, diminuição ou suspensão da medicação durante a gravidez. O uso dos antipsicóticos pode causar a diminuição da menstruação, mas mesmo nesses casos há possibilidade de gravidez, sendo necessário o uso de métodos contraceptivos.
Deve-se levar em conta que criar um filho exige da mãe um esforço grande e acarreta uma importante carga de estresse, o que pode agravar o quadro sintomatológico. Em virtude da gravidade dos sintomas, algumas pacientes poderão ter dificuldade para cuidar da criança.

O portador de esquizofrenia pode tomar bebidas alcoólicas?

Não. As bebidas alcoólicas interagem com os medicamentos utilizados e podem aumentar alguns efeitos colaterais, como sonolência e sedação. Além disso, elas podem desencadear novos surtos

A pessoa com esquizofrenia pode ser contrariada?

Muitos temem dizer "não" ao portador, com receio de que ele piore ou se torne agressivo. O diálogo com quem é portador de esquizofrenia deve ser igual à conversa com qualquer pessoa, tranqüilo, educado e respeitoso, mas devemos lembrar que para qualquer um de nós é necessário estabelecer limites. Embora possa parecer difícil, o indivíduo precisa aprender a tolerar frustrações, como todo mundo.

O portador de esquizofrenia pode trabalhar?

O trabalho deve ter num primeiro momento um propósito ocupacional. O indivíduo deve ser estimulado dentro de suas potencialidades, com o cuidado de se evitar a hiperestimulação ou a sobrecarga de responsabilidades e demandas que possam desestruturá-lo. Ele pode ser gradativamente encorajado a assumir novas responsabilidades à medida que se mostrar mais seguro e confortável em sua função. A equipe terapêutica pode ajudar nesta orientação.

Alguns podem necessitar de um trabalho assistido, ou seja, sob supervisão de alguém que possa assumir responsabilidades que o paciente demonstra não suportar. Esta proteção visa evitar que o trabalho se transforme num potencial risco de recaída, por exceder as capacidades de enfrentamento por parte do paciente, gerando mais angústia e estresse.
A pessoa pode precisar assumir uma função com grau menor de complexidade do que a que vinha exercendo antes de seu adoecimento e o processo de reabilitação deve focar no melhor desfecho

O portador de esquizofrenia pode dirigir veículos
Dirigir veículos é uma questão de bom senso. Se ele estiver controlado, fora de crise e tomando regularmente a dose de manutenção, tem condições de dirigir veículos, desde que tenha consciência de que a medicação pode eventualmente reduzir a rapidez de seus reflexos. Convém ser acompanhado inicialmente por familiares que avaliam suas habilidades.


Onde buscar ajuda:

A moderna atenção à saúde mental, não prevê mais internações de longa duração, e deve-se exigir sim, uma melhor qualidade no atendimento ambulatorial, o tratamento deve ser baseado em uma rede articulada de atenção à saúde mental, ficando a internação como ultimo recurso e não como primeiro, é assim que acontece na maioria das doenças não psiquiátricas.

O atendimento em saúde mental na rede, hoje está dimensionado da seguinte forma:

Unidades Básicas de Saúde – acompanhamento ambulatorial

Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs)

CAPS (Centro de Atenção Psicosocial) – acompanhamento intensivo
Divididos em atendimento a adultos, crianças e adolescentes e para dependentes químicos.

Prontos Socorros – atendimentos emergenciais.

Unidades de Internação Psiquiátrica e Clínicas Especializadas – atendimento em regime de internação integral ou parcial.

Além disso, profissionais e serviços disponíveis na rede privada (convênios de saúde ou particulares) também podem ser procurados:

Em consultórios ou clínicas: psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, acompanhantes terapêuticos, etc.

Unidades de internação psiquiátrica em regime de internação integral ou parcial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

Bellack, A. S., Haas, G. L., Schooler, N. R., & Flory, J. D. (2000). Effects of behavioural family management on family communication and patient outcomes in schizophrenia. British Journal of Psychiatry, 277, 434-439.
Kaplan HI, Sadock BJ, editores. Tratado de Psiquiatria. 6a edição. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 1999.
American Psychiatric Association Pratice Guidelines. Practice guideline for the treatment of patients with schizophrenia. Am J Psychiatry 1997;154(Suppl 4):1-49.
Zanini MH, Cabral RRF. Psicoterapia de grupo na Esquizofrenia. In: Shirakawa I, Chaves AC, Mari JJ, editores. O desafio da Esquizofrenia. São Paulo (SP): Lemos Editorial; 1998.
 

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