Psicóloga Eliana Di Sarno

Esquizofrenia Parte 1

INTRODUÇÃO

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos familiares e cuidadores dos portadores de esquizofrenia é o desconhecimento da doença, levando a uma maior vulnerabilidade frente às crises que o paciente venha a apresentar.

Por ser um transtorno que pode limitar o indivíduo em diversas áreas, os pacientes podem necessitar de um cuidador em tempo parcial ou integral. Familiares e cuidadores bem orientados podem aprender a lidar com os portadores de forma mais adequada e reconhecer sinais precoces de piora do quadro, o que lhes dará ferramentas para que contribuam com a melhora e adesão ao tratamento necessário em cada caso. A diminuição do medo, ansiedade e confusão torna possível uma melhor disposição para lidar com a esquizofrenia e suas complicações.

Nos últimos anos, muitos trabalhos evidenciaram que a esquizofrenia é um transtorno mental cuja evolução pode ser bastante influenciada por fatores psicossociais. Ela acarreta uma sobrecarga emocional e material para o paciente e sua família, podendo favorecer a geração de um ambiente de tensão e desesperança, reforçado pela cronicidade do transtorno e pelo estigma decorrente do mesmo. Além disso, a presença de críticas, hostilidade e alto envolvimento emocional podem afetar negativamente as manifestações clínicas.

Portanto, é extremamente importante informar-se sobre o transtorno e formas de lidar com comportamentos inadequados, compartilhar experiências com pessoas com problemas semelhantes e receber ajuda para lidar com o estresse, nas diferentes fases. As famílias que têm um portador com esquizofrenia precisam lidar com vários dilemas e aprender a resolver problemas relacionados à existência do transtorno, uma vez que a decisão final deve ser individual, já que cada núcleo familiar tem a sua identidade e o portador é uma pessoa, com personalidade e temperamento próprios.


O QUE É ESQUIZOFRENIA?

A esquizofrenia é um transtorno mental crônico caracterizado pela desorganização de diversos processos mentais. Na maioria das vezes de início precoce (da adolescência até o início da fase adulta), ela atinge aproximadamente 1% da população, com igual freqüência em mulheres e homens.

Com tendência a uma evolução com piora gradual se não for tratada imediatamente e da forma correta, a esquizofrenia é um transtorno do funcionamento cerebral de origem multifatorial. Isto quer dizer que não dá para atribuirmos o seu surgimento a uma só causa. Apesar de haver predisposição genética, a influência dos fatores ambientais é importante para que ela se manifeste, mesmo que nem sempre seja possível identificar fatores desencadeantes evidentes.

Ainda não temos à nossa disposição exames capazes de fazer o diagnóstico de esquizofrenia. Para que isto seja possível é necessária uma consulta com um psiquiatra, que é o profissional capaz de identificar se o paciente apresenta sintomas que permitam considerá-la uma das hipóteses diagnósticas.


Existe mais de um tipo de esquizofrenia?

Sim. Os tipos de esquizofrenia são: paranóide, hebefrênica, catatônica, indiferenciada, residual e simples. São vários os sintomas possíveis e, dependendo de quais deles predominam, a apresentação do transtorno em um indivíduo se dá de forma muito diferente do que ocorre com outra pessoa. Além disso, o quadro clínico pode mudar com o passar do tempo e do tratamento.

Os sintomas da esquizofrenia podem ser classificados como:


Sintomas Produtivos (ou Positivos).

 Alterações dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) e da percepção (forma de analisar e perceber o que está acontecendo ao seu redor). Ex: Alucinações.
 Alterações do pensamento.
 Do conteúdo: pensamentos estranhos, que não condizem com a realidade, às vezes se baseando em fatos imaginários ou alucinações. Ex: delírios.
 Da velocidade: o pensamento fica mais lento ou acelerado.
 Da estrutura: fica difícil entender o que o indivíduo pensa, pois as idéias não estão organizadas de forma coerente.
 “Do controle”: observado, por exemplo, quando a pessoa acredita que o pensamento não é seu ou que foi roubado.
• Distorções do discurso: quando a fala apresenta uma estrutura desorganizada ou incoerente, normalmente reflexo de alterações do pensamento.
 Comportamento desorganizado.


Sintomas Negativos:

 Embotamento afetivo: Redução na capacidade de expressão do afeto.
 Isolamento Social
 Diminuição da Motivação
 Lentificação Psicomotora
 Ambivalência: dificuldade de tomar decisões ou expressar idéias sem mudá-las logo depois.
 Anedonia: dificuldade de sentir emoções em situações nas quais elas são esperadas
 Passividade



Sintomas Cognitivos:

 Diminuição de funções responsáveis pelo aprendizado e raciocínio:
 Atenção
 Concentração
 Compreensão
 Abstração
 Memória
 Capacidade de “Processamento” das informações.

Sintomas depressivo-ansiosos:

 Depressão
 Ansiedade
 Desesperança
 Culpa
 Preocupação
 Idéias de suicídio

Sintomas relacionados à Agressividade:

 Hostilidade
 Abuso verbal ou físico
 Agressividade contra os outros e contra si mesmo
 Impulsividade
 Hipersexualidade

Esquizofrenia não é sinônimo de violência, apesar às vezes do aumento da impulsividade ou da irritabilidade.



Como a esquizofrenia é tratada?

Tratamento medicamentoso:

O tratamento da esquizofrenia tem como condição central o uso de antipsicóticos. Além disso, podem ser usados outros tipos de medicamentos caso o portador apresente sintomas que não respondem a estas substâncias, como é o caso, por exemplo, do uso de antidepressivos para tratamento de sintomas depressivos e ansiosos.

Como os medicamentos disponíveis têm formas de ação e utilização diferentes entre si, cabe ao psiquiatra responsável a escolha do antipsicótico adequado para cada caso, assim como a satisfação de dúvidas a respeito de efeitos colaterais e alternativas possíveis.

Tratamento não medicamentoso (Psicossocial):

 Terapia Ocupacional
 Psicoterapia ( do paciente e familiar)
 Treinamentos Cognitivos-Comportamentais
 Psicoeducação
 Reabilitação Neuropsicológica
 Terapia Familiar

Em boa parte das vezes os portadores apresentam períodos de remissão, que são maiores e mais frequentes em pacientes com um bom tratamento (medicação e adesão). O tratamento precoce e regular aumenta a chance de sucesso, com um número menor de recaídas ou menos sintomas residuais. Além disso, mesmo em casos que os medicamentos não levam a uma recuperação total, o tratamento psicossocial pode promover melhora do quadro clínico.



PRECONCEITOS E ESTIGMA NA ESQUIZOFRENIA

A palavra estigma pode ser definida como marca, sinal, cicatriz, chaga. É sempre ligada a algo desagradável, algo que se quer esconder ou evitar. Na maioria das vezes o próprio estigma é mais danoso do que a própria doença, pois vem carregado de preconceitos ou falsos conceitos.

Nos últimos anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem investindo em sensibilizar a opinião pública para a importância dos transtornos mentais e sua implicação na saúde da população. Entre seus objetivos encontram-se também o combate aos preconceitos, idéias falsas e estigmas.

Receber a notícia de uma doença é um dos momentos mais difíceis para a maioria das pessoas. Receber um diagnóstico de um transtorno que se sabe ser crônico e carregado de “pré-conceitos” é algo que pode desestabilizar tanto a pessoa portadora quanto seus familiares.

Os transtornos neuropsiquiátricos ainda são alvo de muitos comportamentos discriminatórios, vindos de não-portadores e também dos portadores. Um exemplo constante e freqüentemente exposto na mídia é a agressividade como um componente sempre presente nos transtornos mentais.

É comum que portadores de esquizofrenia e seus familiares demorem a procurar ajuda. A falta de informação, o entendimento de que “isto pode ser uma fase passageira” ou uma “crise da adolescência” pode estar entre os motivos para que isso aconteça. É comum também que procurem ajuda em outras instâncias que não as de saúde.

Com o diagnóstico aceito, os familiares passam por outro processo: o medo do futuro e as incertezas do tratamento. Procuram entender os motivos porque isto aconteceu, passando a questionar e a buscar informações e soluções, algumas vezes se esquecendo de suas próprias vidas.
 

Estes sentimentos também podem vir junto com vários comportamentos, que podem levar ao isolamento social, à vergonha e à culpa de ter alguém na família portador de um transtorno mental que é vitima de inúmeros preconceitos

Isto se deve em parte ao estigma que a esquizofrenia carrega. Com conotação negativa, a palavra é ligada a vários traços que desqualificam. Assim, a pessoa que se sente portadora de um estigma se percebe inferior e desvalorizada perante os outros. Torna-se mais isolada e passa a evitar alguns contatos sociais.

Por ser um transtorno crônico é necessário um suporte familiar contínuo. O fato de ter um membro da família portador de esquizofrenia acarreta inúmeras modificações no cotidiano, impondo transformações significativas nos relacionamentos e rotinas.

A esquizofrenia é um transtorno mental que limita o indivíduo todos os setores da vida do paciente são afetados, tornando sua reintegração social, familiar e profissional difícil. Nestas circunstâncias a educação é fundamental para formar cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres. Situações de preconceito e estigma tornam os portadores de esquizofrenia mais suscetíveis aos estressores do ambiente, principalmente onde não existe um bom atendimento em saúde mental e suporte na comunidade.

Um dos primeiros passos a dar no combate ao preconceito é enfrentar a existência do transtorno, buscando informações adequadas com profissionais e troca de experiências com familiares de outros portadores. Às vezes manter segredo pode ser uma forma de tentar minimizar o impacto da doença na vida da pessoa. Com certeza não é necessário contar tudo o que acontece na nossa vida pessoal para todos, mas tentar manter em completo segredo o seu sofrimento pode levar ao isolamento e incapacidade de poder compartilhar e receber apoio nos momentos mais difíceis. Além disso, a resposta ao segredo pode ser o oposto da desejada, aguçando a curiosidade e estimulando a fantasia daqueles que fazem parte do seu circuito social.

O mais importante é saber que a postura de cada indivíduo é importante, pois as atitudes e palavras do dia a dia podem contribuir para a manutenção de um ambiente de exclusão e experiências ruins, como relatados por alguns:

“Uma vez ele disse para mim que não queria viver com uma mulher que vive direto no médico... uma doida.”
 

“Você ta doida, lugar de doido é no hospício, foi isso que me disseram...”.

Por outro lado, atitudes positivas e estimuladoras permitem a inclusão social espontânea, que mantém o portador ciente de que tem responsabilidades e direitos, como qualquer outro.


A IMPORTÂNCIA DAS ATIVIDADES DO COTIDIANO

A atividade humana está relacionada às atividades do cotidiano. Estas são de fundamental importância em nossa vida. Aos portadores de esquizofrenia, realizar diariamente atividades possibilita a melhora de aspectos cognitivos e ocupacionais. Todos nós seguimos uma rotina diária de tarefas, das simples para as mais complexas que nos direcionam para os nossos objetivos e metas.

Geralmente ao acordarmos já pensamos em nossas ações a serem realizadas durante o dia (tarefas). A atividade é a execução de uma tarefa, ou ação por um indivíduo (fazer algo). As tarefas estão implícitas em nossas rotinas diárias que normalmente já estão estabelecidas. Nossa rotina, atividades e ocupações, servem para organizar nosso cotidiano.

Muitas vezes devido ao comprometimento da doença, o portador de esquizofrenia acaba por apresentar certas limitações nas atividades do seu cotidiano, diminuindo sua participação nas mesmas. Devemos estar atentos a algo que chamamos de PREJUIZO OCUPACIONAL E SOCIAL, quando o cuidado pessoal, as tarefas domésticas, os contatos sociais, profissionais e de lazer deixam de acontecer.

A Terapia Ocupacional classifica as atividades em:


1. Atividades de Vida Diária (AVD): é toda e qualquer atividade que objetiva a:

1.1. Higiene pessoal: banhar-se, barbear-se, escovar os dentes, cuidar dos cabelos e das unhas, depilar-se, aplicação de maquiagem, etc .
1.2. Alimentação: relaciona-se ao comer, sentar-se a mesa, utilização dos talheres adequadamente, alimentar-se de forma adequada, servir-se, preparar seu próprio alimento, comer de boca fechada, etc.
1.3. Vestuário: vestir-se adequadamente em casa, na rua, em eventos sociais. Cuidados com as roupas e sua conservação.
O asseio pessoal colabora para a melhora da auto-imagem e auto-estima minimizando o preconceito que o doença mental proporciona de descuido pessoal.


2. Atividades Instrumentais (Práticas) da Vida Diária (AIVD)


É toda e qualquer atividade com finalidade prático-ocupacional, em termos de afazeres do lar e trabalhos práticos do dia-a-dia (ir ao banco, supermercado, pegar ônibus, vir ao hospital, limpar a casa, gerenciamento financeiro, etc).
Aspectos importantes destas atividades são:
 Organização da rotina diária;
 Organização de seu espaço físico;
 Locomoção;
 Desenvolver autonomia e independência

Orientações em relação às AVDs e AIVDs

Observar se o paciente está de banho tomado, dentes escovados, barba feita, higiene íntima adequada.
 Dar pequenas tarefas dos afazeres domésticos para os portadores de esquizofrenia realizar em casa (ex. arrumar a cama, o quarto). Iniciarem com pequenas solicitações;
 Pedir para os portadores de esquizofrenia realizar tarefas fora de casa (ir ao supermercado, correio e banco, etc.);
 Estimular os portadores de esquizofrenia serem independentes (saírem sozinhos, serem responsável por seus medicamentos quando possível, por exemplo)
 Estimular os portadores de esquizofrenia realizarem pequenas tarefas e ampliá-las ao longo do tempo. Quando não há condições de realizá-las sozinhas, acompanhar, ajudar e ensinar o paciente quantas vezes for necessário.

3. Atividades Educacionais/ Profissionais


São as atividades de ensino, aprendizagem (escolares) e profissionais. Têm um caráter econômico e papel ocupacional. Para a realização destas atividades é necessário serem avaliados alguns aspectos:
 motivação
 habilidades
 aptidões
 condições interpessoais e mentais

Orientações em relação às Atividades Educacionais/ Profissionais

Para desempenhar tais atividades, o indivíduo tem que apresentar uma organização adequada nas atividades de vida diária e prática, com um grau de independência e iniciativa que lhe permita “dar conta” de uma rotina de tarefas de estudo ou trabalho. Para o desempenho adequado é necessário:
 Avaliar quais as habilidades do portador..
 Incentivar que o portador faça cursos,
 Que participe de oficinas profissionalizantes e retome o estudo quando possível
 Para uma inclusão no mercado de trabalho.
 Ensinar ou organizar um currículo.
 Buscar espaços que a realização das tarefas profissionais sejam simples, ambiente tranqüilo e receptivo as condições do mesmo.


4. Atividades de Lazer

São atividades lúdicas (recreativas) e de entretenimento. O principal objetivo é a qualidade de vida. Aspectos importantes:
 vivência social;
 identificações (prazer);
 hobbies;
 culturais;
 comunicação;
 diversão e entretenimento;e
 religiosos.

Orientações em relação às Atividades de Lazer

 Estimular os pacientes a saírem de casa para realização destas atividades (ir a parques, museus, exposições, cinemas, etc.);
 Convidar os pacientes para atividades conjuntas;
 Estimular para atividades esportivas (caminhada); e
 Visitar parentes e amigos, incentivando para o relacionamento interpessoal.


Como podemos ajudá-los?

1. Entender e fazê-lo entender que ele tem uma doença e que esta compromete na maioria das vezes às atividades ocupacionais.
2. Conversar com ele a respeito de suas dificuldades e se dispor a ajudá-lo a realizar as atividades, fazendo acordos e criando regras de convivência entre os familiares. Todos precisam ter uma linguagem comum.
3. Estimulá-los a desenvolver uma rotina diária, orientando-os desde atividades simples até mais complexas.
4. Não fazendo as atividades para ele, ou tratá-lo com se ele não fosse capaz. Acredite: ele pode!
5. Criar estratégias para que ele retome ou aprenda a desenvolver certas habilidades.
6. Ajudá-lo a acreditar que existem aspectos sadios e mostrá-los.
7. Estimular o convívio com outras pessoas.
8. Procurar auxílio com um profissional especializado sempre que necessário.
« Voltar
Todos os direitos reservados à Elaine de Sarno. Powered by Link e Cérebro